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quarta-feira, 11 de maio de 2016

A língua grega: expressão motora de mudanças e instrumento de preservação



por João Victor Maciel de Almeida Aquino*

A linguagem é formada por uma série de movimentos e informações dividas entre cérebro, cordas vocais, pulmões, lábios e língua. A cada movimento emitimos uma vogal, uma sílaba e uma infinidade de palavras. Não sabemos ao certo quando os idiomas surgiram ou como passamos de uma comunicação básica e primitiva para um conjunto complexo e organizado que denominamos língua. Nesse mar de incertezas sabemos apenas que a língua é viva, dinâmica bem como a expressão da cultura, de um tempo e de um povo, logo acompanhando as mudanças e as reinvenções dos mesmos.
Nós, como praticantes de uma religião que se originou há milhares de anos no território que hoje compreende a Grécia, temos uma relação especial com a língua grega. Mesmo quando reformulamos alguma prática religiosa e a adaptamos para um novo contexto temporal e geográfico, a relação com as suas origens continua intrínseca. 

Atualmente o grego é falado por cerca de 15 milhões de indivíduos ao redor do mundo. É a língua oficial tanto da Grécia quanto de Chipre. A maior concentração de falantes encontra-se nestes dois países, no entanto podemos encontrar pequenas populações falantes em vários países do Mediterrâneo (como sul da Itália, Israel e Egito) e no entorno do Mar Negro (como na Ucrânia, Rússia, Geórgia e Armênia). Além de aspectos geográficos, o grego possui uma identidade particular como língua erudita, sendo empregado – desde o império romano - em várias áreas do conhecimento como a matemática e a física, assim como nos campos antropológico, histórico e cultural. 
A língua grega evoluiu tanto na escrita quanto na oralidade para chegar ao estágio do que hoje conhecemos como grego moderno. Como no contexto de diferenças culturais e espaciais do que hoje forma a Hélade pode surgir uma língua cheia de multiformidades como o grego? Chegar a uma resposta definitiva a respeito disso é uma tarefa praticamente impossível. O que nós podemos fazer é tentar compreender as várias mudanças do idioma e ir mais além, fazendo uma reflexão a respeito da influência destas sucessivas mudanças na prática religiosa e do modo como encaramos a fé nos deuses. 

Alguns estudiosos do campo linguístico fazem uma relação da evolução de um idioma com uma ampulheta, pois assim como a areia que passa de ambula para outra ao realizar a contagem, quando a ampulheta é virada, a areia realiza novamente a contagem do tempo, mas isso sem mudar a sua essência (é sempre a mesma areia). A língua muda, mas nunca sem perder o seu papel como protagonista das relações humanas. No contexto grego, a mudança e a expansão do idioma assim como a difusão e unificação só foram possíveis devido a uma sucessão de fatos históricos. A data mais remota da presença de falantes do idioma data aproximadamente do ano 2000 AEC. Por ter uma origem remota é difícil definir os limiares do surgimento da língua grega. Existem atualmente muitas possibilidades em discussão. A mais aceita entre os estudiosos é a de que em tempo mais antigos – por volta de 2200 AEC – existia um dialeto único, o grego comum, que por algum motivo fragmentou-se em dialetos diferentes. Já outros dizem que tal idioma nunca existiu. 

Há décadas os estudiosos têm como aliado de sua caça à origem do idioma o sistema de escrita conhecida como linear B. Este, por sua vez, era empregado pelos micênicos na idade do bronze e utilizava – de forma adaptada – a escrita silábica dos minoicos de Creta. A linear B, mesmo que praticamente decifrada ainda traz consigo uma série de interrogações.

Durante o período conhecido como Idade das Trevas (1100 – 750 AEC), com a invasão dos Dórios, a estrutura urbana, comercial e social que havia sido estabilizada ruiu. A escrita foi praticamente inutilizada durante três séculos de domínio.


Andando mais um pouco no tempo temos os primeiros contatos dos gregos com os fenícios. A Fenícia há um tempo já vinha se tornando uma potência comercial na área do mediterrâneo, tendo entrepostos comerciais que vinham deste a Palestina até a Península Ibérica. A princípio algumas póleis adotaram os sinais desenvolvidos pelos fenícios. Em questão de anos o seu uso se expandiu as outras póleis, cada qual com o seu conjunto próprio de sinais. O alfabeto da cidade de Mileto foi adotado por Atenas e em seguida por outras cidades até sua total unificação. Mesmo tendo uma escrita praticamente unificada a diferença na oralidade ainda era notável. Existia no âmbito geográfico uma diferença social entre os vários dialetos existentes. O ático, por exemplo, era um dialeto com mais prestigio. Os intelectuais, escritores, dramaturgos e comerciantes – mesmo tendo um dialeto materno diferente – o utilizavam, transformando a sua produção assim como possibilitando uma troca de experiências e sabres entre as póleis. Essa difusão e aceitabilidade contribuíram para que fosse o ático a base para o idioma comum, o koiné,

Alguns séculos depois durante a campanha militar de Alexandre III da Macedônia surgiu o koiné que também é conhecido como “dialeto comum”. Este por sua vez se difundiu entre os exércitos de Alexandre e logo se popularizou em seus domínios. Muitos intelectuais viam no idioma comum uma perda tradicional das singularidades que o ático possuía, isso em termos práticos não travou as modificações pelas quais o idioma veio a passar. Alexandre possuía um respeito pelas várias culturas que faziam parte do seu império. Levava consigo uma série de geógrafos, naturalistas e historiadores, como Calístenes de Olinto, o cronista das suas expedições. A ampliação da esfera de influência grega foi significativa para que a região se desenvolvesse e que fosse iniciado um período de intercâmbios e transformações dentro do campo idiomático do mesmo modo que também ocorreu nas produções artísticas e na organização civil, culminando em vários embates e revoltas de cunho social em Esparta, Tessália e Beócia.

Nos anos que se decorreram da ascensão de Alexandre à queda de Roma foram muitos os motivos que transformaram profundamente a história da Grécia e do hellenismos. Dentre elas a mais marcante foi a adoção, por Constantino I, do cristianismo como religião oficial do estado romano e seus territórios, incluindo a Grécia. No final do século IV, a maioria da população romana era de cristãos, principalmente os membros da classe política. Os imperadores e autoridades ordenaram o fechamento dos templos e oráculos, proibiram os festivais e qualquer manifestação pública de cunho religioso. Sobrevivendo nas áreas rurais, a prática foi sendo agregada a ritos muitas vezes cristianizados. Muitos dos devotos, por pressão social, medo de perseguição ou por simpatia pela nova religião, acabavam por abandonar a religião politeísta de seus avós e antecessores, o que consequentemente levou a religião a uma transformação nos modos de organização, espaço e significados.

Em ocasião dos sucessivos desafios à manutenção das tradições religiosas, a linguagem se revela uma grande ferramenta da preservação, tendo na tradição um esteio, passando de geração em geração seus conhecimentos a respeito dos deuses. Ao fazer uma análise compreendemos de melhor forma o papel do idioma, já que tais fontes orais permitem, de uma forma mais orgânica, o entendimento da dinâmica, dos afazeres, normas e valores que norteavam a população da Hélade que a essa altura já era totalmente diferente da de dois séculos atrás.

Mesmo cristã, parte da população continuava frequentando os bosques e realizando rituais em honra às divindades ancestrais. Uma prova disso são os textos clericais da idade média que nos elucidam a cerca das dificuldades da evangelização de povos pagãos. Segundo Mario Jorge da Motta Bastos, em Cultura clerical e tradições folclóricas: estratégias de evangelização e hegemonia eclesiástica na Alta Idade Média, 
na medida em que os vários grupos [...] assentados na Europa converteram-se ao cristianismo, não houve um processo de abandono integral das suas culturas compatíveis com a perda de suas religiões; certas crenças religiosas novas foram adotadas em detrimento de outras, preservando-se o ‘contorno’ cultural [...] no qual inseriu-se o cristianismo. 
Outra forma de culto que resistiu a catequização católica foram os cultos domésticos, que na privacidade do lar, eram honrados.
Apesar de uma série de contratempos a religião perdurou e atravessou séculos de perseguições e estigmatização. Muitos o davam por extinto e a lembrança do último imperador abertamente helenista já não era nada mais que um vulto na história.  Em meio a ruínas dos templos brilhantes de outrora surge o Reconstrucionismo Helênico com o objetivo de reviver – mas não de forma nostálgica – as tradições dos antigos gregos.


O Hellenismos está em constante mudança e redescoberta. A cada novo estudo feito e a cada progresso realizado a religião se torna cada vez mais viva. Nós por exemplo nos servimos tanto de autores e produções clássicas quanto de contemporâneas, moldamos as antigas tradições para os nossos dias e nos encontramos em um constante estado de aprendizado. Mircea Eliade afirma que uma das características dos ritos é que eles são uma repetição de normas e gestos primordiais, sendo assim, eles eliminam o tempo profano e transmitem às pessoas um tempo sagrado, que se repete não por uma ideia de sucessão, mas para tornar o momento sagrado sempre presente e realizável (Eliade, 1998). Ou seja, o culto aos deuses transcende o tempo, as mudanças e a sociedade. 

Em cada momento da história os desafios do culto são diferentes. Hoje, os desafios envolvem a formação dos novos membros e de uma organização clerical completa. Ainda devemos levar em consideração o crescimento do culto aos deuses no mundo, saindo da Grécia e se espalhando por outros lugares. No Brasil por exemplo há um núcleo considerável e presente em diversas cidades e regiões. Muitas práticas e festivais foram reformuladas em certos pontos e adaptadas para atender a sua finalidade. A adequação se mostra ainda mais importante quando se tem em vista o fato de que muito dos praticantes se encontram isolados geograficamente um do outro e realizam os ritos de forma individual.

Talvez o motivo pelo qual a crença nos deuses tenha resistido e que venha ganhando cada vez mais adeptos seja por um fator simples: Os deuses estão em todos os lugares. Não de forma onisciente, onipotente e onipresente como em outras religiões, mas sim pelo fato de a prática estar presente em nossas vidas em diversos momentos. Diferente das religiões judaico-cristãs, a visão dos deuses não é baseada na subserviência, mas sim em um respeito no qual os deuses estão ao nosso lado, como amigos, mestres e companheiros de diversas ocasiões. Dentro do contexto cultual e social uma religião é delineada pelo modo como se conecta ao divino e o modo como isso afeta as relações humanas, sendo a relação humanos-deuses o motor de transformações e a garantia de sua perpetuação.

Referências
FEITOSA, João. Rito e Cura no culto de Asclépio no Final do Período Clássico. 
ADRADOS, Francisco. A History of Greek Language.
SILVA, Acildo. Memória, Tradição Oral e a Afirmação da Identidade Étnica.
GUIMARÃES, Vitor. O Clero Cristão e as Práticas Pagãs no Reino Visigodo.
BOVO, Elisabetta (Coord.). Grande História Universal, Época Helenística. Barcelona: Folio, 2001.

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João Victor Maciel mora em Campo Grande e faz parte do programa de Educação Básica para Membros do RHB. É estudante de direito e participa das atividades do Reconstrucionismo Helênico no Brasil desde 2014.

domingo, 22 de novembro de 2015

Resultado Final - Processo Seletivo EBM - turma 2

Após mais de um mês de divulgação e abertura para inscrições recebemos ao final vinte e oito propostas de membros com interesse em participar do Programa de Educação Básica para Membros, dos quais duas foram indeferidas por não atenderem aos critérios estabelecidos no informe de convocação. Nesse total, ressaltamos a amplitude do processo tendo em vista que, deste percentual, apresentaram-se candidatos de todas as regiões do país.

Após recebidas, as inscrições foram avaliadas por uma comissão composta por três avaliadores que atualmente configuram o corpo de orientadores do RHB. Com base nas informações fornecidas prioritariamente pelo formulário, mas também considerando a participação dos candidatos nos espaços de discussão e formação construídos pelo RHB, cada uma das inscrições foi avaliada separadamente pelos membros da Comissão,, atribuindo-se uma nota de 0 (zero) a 10 (dez); ao fim, elaborada uma média aritmética com o objetivo de escalar os melhores avaliados. Conforme estabelecido pelo informe, foram destinadas sete vagas para esta segunda turma, além de um excedente de três candidatos em lista de espera no caso da desistência ou não cumprimento, por parte dos selecionados, da etapa seguintes do processo. Também foi facultado à Comissão a indicação de um candidato que não estivesse classificado entre os sete, mas que fosse considerado de desempenho satisfatório através de outros espaços de interlocução. Dado isso, o resultado final dos aprovados foi elaborado.

Candidatos/as Aprovados/as
1 - Heloísa Mattos Vidal e Silva
2 - Victor Brito Villar
3 - Danielle Portugal (Dan Portugal)
4 - Diego Rodrigues Souto Calazans
5 - Patrycia Werneck
6 -João Victor Maciel de Almeida 
7 - Andrea Vasconcellos Bezerra

Lista de Espera
1- Tatiane Correia dos Santos
2 - Aline Freire de Oliveira Brum
3 - Juliana Ribeiro

Para conferir o relatório completo de avaliação, incluindo as notas recebidas, clique AQUI

Atenciosamente

Thiago Oliveira
representante da Comissão de Seleção

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Convocação - Programa de Educação Básica para Membros - turma 2016

Encontram-se abertas no período de 12 de outubro a 07 de novembro de 2015 o processo seletivo para novos candidatos ao curso de Educação Básica para Membros (EBM) do grupo Reconstrucionismo Helênico no Brasil (RHB). O curso tem duração média de um ano e se destina aqueles que se identificam com o helenismo em seu sentido amplo, e de modo específico com as abordagens reconstrucionistas, tendo em vista ser essa a orientação adotada pelo grupo.

O curso tem o objetivo de instrumentalizar os devotos no que concerne aos referenciais básicos para entendimento da religiosidade helênica possibilitando assim um espaço de reflexão para as práticas devocionais-religiosas contemporâneas ancorada em elementos mínimos da história e cultura dos povos gregos da antiguidade.

A Educação Básica para Membros é um curso estruturado em quatro módulos desenvolvidos no intervalo médio de um ano. Os módulos são:
I – História, geografia e processo de formação da Hélada
II – Filosofia
III – Literatura
IV – Helenismo

É importante salientar que o curso não tem pretensões à formação de grupos de prática, sendo de maneira prioritária um espaço de formação, debate e entrosamento das diversas experiências devocionais daqueles que formam parte de suas atividades. Aqueles que se submetem ao curso e finalizam, sendo graduados, podem se submeter também a outras modalidades de curso oferecidos pelo RHB, como os Estudos Avançados, os cursos para Exegetes e Mantis.

INFORMAÇÕES
Público-alvo: pessoas que se identificam com o Helenismo e têm interesse em aprofundar seus estudos e experiências religiosas
Vagas oferecidas: até 7 (sete)
Período: janeiro a dezembro/2016
Pré-requisitos básicos: (a) engajamento nas atividades do grupo RHB em suas diversas modalidades, sejam elas virtuais (como o Fórum, Site e páginas nas redes sociais) ou presenciais (através dos grupos de estudo e prática a ele vinculados); (b) disponibilidade de pelo menos duas horas semanais para realização das atividades e leituras.
Metodologia: sessões de leitura de material bibliográfico indicado; encontros online; exercícios e atividades direcionadas à prática religiosa e cultual.
Custo: gratuito
Inscrições: AQUI